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Los Hermanos del Sur...
Já está sendo anunciado, mais uma vez, no inicio da entressafra, a queda do preço do leite pago ao produtor. Nossos representantes sindicais montaram seu teatro anual e já foram ao MAPA saber sobre a ameaça de “los hermanos del sur”. Eles realmente são muito perigosos, estão sempre preparados para nos invadir com seu leite por vezes somado ao da Oceania e da Europa...
Nesse mesmo tempo, leio no Milkpoint a noticia que a União Européia já tem pronto um relatório para mudar a regulamentação do setor leiteiro através da negociação coletiva e contratação do leite e de uma série medidas como acesso a mercados, rotulagem diferenciada para leite de origem e sucedâneos, difusão de resultados de pesquisa e inovações, enfim um leque de propostas para modernizar e tornar sustentável o setor.
A noticia surpreende primeiro ao visar nova regulamentação do setor até então sustentado por quotas e subsídios, retirados pouco antes da crise financeira com a desregulamentação do mercado. Segundo, pelo tratamento dado problema depois do conflito instaurado após essa iniciativa entre produtor, indústria e comercio, na França, Espanha, Alemanha, Portugal, e outros países. Terceiro, pela velocidade e o nível de resposta dada pelos governos, através da Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural da União Européia.
E nós aqui no Brasil? Que trabalho tem sido feito pelo governo e nossa representação sindical para apoiar a modernização e o fortalecimento – entenda-se capitalização e rentabilidade - do setor de produção primária do leite no país?
As iniciativas tem sido pontuais como as normativas de qualidade do leite, controle sanitário, rastreabilidade, financiamento subsidiado, assistência técnica, etc. Nenhuma proposta no sentido de ordenar as relações entre produtor, indústria e mercado, desarticuladas desde a desregulamentação do setor nos idos 90. Há bastante tempo pois, amargamos instabilidade de preços e insatisfação ante a indiferença da indústria e do comercio, para não falar da representação sindical e do governo.
É como se o setor leiteiro tivesse uma capacidade infinita de regenerar-se face à descapitalização periódica que sofre da indústria e do comercio. Na realidade o que ocorre é um processo insano de controle da produção modernizada pela manutenção do “extrativismo” de baixo custo pelo mercado spot, filhote perverso da desregulamentação. O mercado spot foi organizado a partir da zona de confluência dos estados de Minas, São Paulo, Goiás e se difundiu, podendo ser visto como o sustentáculo da produção “extrativista” do leite e do atraso. Um obstáculo portanto à modernização do setor leiteiro além de vetor de fraudes e riscos que só recentemente o governo começa a enfrentar através de fiscalização mais cerrada.
A associação do spot ao sistema UHT no leite empacotado permitiu uma manobra de mercado das empresas através do aumento da estocagem do UHT nas águas e sua desova um pouco antes da entressafra. Preços baixos das águas são transferidos para a o período da entressafra, com a conseqüente queda do preço do leite ao produtor. O período de maior rentabilidade do produtor encurta a cada ano e com ele o seu lucro.
É apenas uma contradição? Exigir qualidade, sanidade e agora também rastreabilidade de um lado, e de outro estimular através do spot e associações muitas vezes de um dono só, a modalidade extrativista de produção para controlar os preços pagos à produção modernizada enquadrada nas exigências da legislação federal?
As captadoras alegam que pagam bem aos produtores modernizados, pois em cima do preço do UHT que referencia o mercado do leite, elas pagam bonificações por quantidade, qualidade e sanidade, dando a eles condições de lucro com a atividade.
Esse argumento tem um erro de principio, pois a fixação do preço base do leite ao produtor que se faz pelo preço do UHT, é por sua vez referencia e referenciado pelo mercado spot. Uma manipulação predatória que nivela por baixo o preço base do leite e em conseqüência, o preço resultante da sua soma às bonificações, pago ao produtor modernizado.
Com mais essa manipulação de mercado, o processo de modernização da produção primária do leite não flui nem se difunde amplamente como era de se esperar. Os que estão ganhando no presente estão comprometendo o futuro e a modernização do setor. Isso prejudica também o pais e particularmente a região que reúne os estados com maior potencial de produção e mercado, afetando as oportunidades abertas à exportação nesse período de crescente demanda externa por lácteos.
Concluindo e voltando a noticia do relatório da União Européia, ela também informa que até o fim do ano, estará traduzido em propostas de nova regulamentação para o setor leiteiro europeu: negociação coletiva e contratação em substituição às quotas e ao subsídio. Não mais desregulamentação de mercado que tranfere e concentra renda na industria e no comercio em detrimento da produção primária do leite.
Agora dá para perceber, quem realmente são “LOS HERMANOS DEL SUR” ? Quem periodicamente ameaça a renda e o lucro dos que se modernizaram e dos que querem ter futuro, se modernizando também?
Maria Lúcia A. Garcia (22-06-2010)
em 26/06/2010
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