|
Em direção à consolidação do agronegócio leiteiro no Brasil?
Muitos anos se passaram quando nós, proprietários da Fazenda Cayuaba, decidimos abandonar a maneira corrente de tocar fazenda e resolvemos encarar a chamada “tecnologia leiteira” de então que se caracterizava pelo uso de touros PO das fazendas Paraíso ou Campo Verde associado à inseminação de touros americano ou canadense, duas ordenhas, suplementação com capim napier, cana, farelo de trigo e farelo de algodão na seca.
Visitando rebanhos de “elite” na região de Barbacena, sul de Minas, São Paulo, Paraná, Uruguai, lendo e importando revistas especializadas, aplicando nossas cabeças afeitas à medicina e às ciências sociais à bovinocultura e à agricultura, fomos abrindo caminhos outros que nos pareceram mais promissores para melhorar nosso rebanho e nossas terras de vegetação de campos alpinos e cerrado.
Nosso envolvimento com a modernização da fazenda a partir da década de 80, coincidiu com a decadência da exploração leiteira nas regiões mais tradicionais de Minas, substituida pelo café, já então substituído no Paraná e em São Paulo por outras plantações, soja, milho, cana, gado de corte e outras, a exemplo do centro-oeste.
Foram tempos de muitos desafios, experimentações e transformações em um contexto de dificuldades e incertezas econômicas e políticas, tornamo-nos como que uma especie de avis rara na região. A ponto de muitas vezes, me ver colocando a mão na cabeça desesperançada, e perguntar: meu Deus, aonde fui amarrar minha égua!? Por que não em São Paulo ou no Paraná!?
Ao longo desse tempo cinzento, a região se desmoronou, a cooperativa faliu, as fazendas fartas e alegres, com seus donos e empregados dispostos, bons conhecedores de animais e plantas, desapareceram. Os mais jovens partiram para as cidades grandes, inchando repartições públicas, suburbios e favelas. Uma minoria assumiu negócios, profissões e ofícios, se equilibraram e uma parte até enriqueceu.
Foram cinquenta anos de ensaios de modernização deste pais desde Brasília e o Plano de Metas de Juscelino Kubstcheck, passando pela ditadura militar, os anos de degringolada e inflação, a restauração monetária empreendida por Fernando Henrique, até a retomada do desenvolvimento por Lula.
Os sinais agora apontam no sentido de que os investimentos no setor leiteiro poderão deslanchar, sem o caráter sacrificial que marcaram as iniciativas anteriores de vários empreendedores . As tecnologias estão mais bem avaliadas, aos trancos e barrancos desenvolvemos genética de ponta nas raças zebuínas de carne e leite.
O Girolando através de mestiçagem bem conduzida com o recurso recente dos marcadores genéticos e a tecnologia de produção e transferência de embriões tem tudo para acertar os alvos maiores da rusticidade e da produtividade leiteira. E porque não, operar uma revolução em larga escala da rentabilidade do negócio leiteiro.
Diminuiu nossa pobreza crônica e ascendeu ao mercado grande parte da nossa população até então excluída do banquete do consumo. Cresceu a demanda por leite, diversificaram-se os produtos lácteos, outros países emergentes populosos como os asiáticos adotaram o leite de origem animal em sua dieta, elevou a demanda internacional.
No front das empresas, continuam algumas mazelas que tendem a diminuir, na medida em que intensifica a competição por terras para o agronegócio, cada vez mais diversificado devido à demanda mundial explosiva por alimentos. O leite de qualidade passou a ser a base da construção de novas relações com as captadoras não só pelas exigências do mercado interno e externo, como pelo aumento da fiscalização governamental. São cada vez mais constantes as apreensões de produtos lácteos adulterados e impróprios para consumo, particularmente o leite UHT e em pó. A contratação do leite in natura está deixando de ser um bicho de sete cabeças e muita indústria a utiliza como instrumento de estabilização das suas relações com produtores maiores.
A novidade mais recente: a reestruturação do cooperativismo no pais através da integração de cooperativas centrais dos estados de Minas, Goiás e Paraná, grandes produtores de leite do país. A referência constante dos seus presidentes, divulgadas pelos meios de comunicação, ao cooperativismo neozelandês é um bom indicio de que o novo cooperativismo levará a sério o problema das cotas de propriedade dos produtores, instrumento fundamental de capitalização e renda não só para eles, como para as próprias cooperativas. Veja-se a recente capitalização efetuada pela Fonterra através de seus cooperados.
Parece que ventos mais vigorosos estão soprando em direção à constituição de fato do agronegócio leiteiro no país, com todas as exigências que uma economia de mercado forte impõe: renda, consumo, investimento, inovação tecnológica (genética e gerencial), lucro. Isso significa a produção leiteira adquirir competividade em relação a outras explorações agricolas.
Inovações genéticas e gerenciais já estão sendo aplicadas com resultados surpreendentes por produtores que trabalham com referenciais do melhoramento animal e do leite de qualidade. Maria Lúcia A. Garcia
em 06/04/2010
[voltar para a lista de artigos]
|